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Por dentro da KK Park, a fábrica de fraude online que explorava brasileiros

Em Mianmar, jovens esperançosos são atraídos a centrais especializadas em golpes com criptomoedas, como o KK Park. Lá, a serviço do crime global, trabalham sob ameaças e torturas. Brasileiros estão entre as vítimas.

Aaron mal podia acreditar na própria sorte: uma companhia de tecnologia da Tailândia lhe oferecera o emprego de seus sonhos – salário alto, benefícios generosos, uma via para escapar de um futuro desolador no sul da África. "Eu torcia para ir trabalhar em outro continente, e um dia me contataram. Eu achava que tudo era legítimo – até que cheguei a Bangcoc."


Por dentro da KK Park, a fábrica de fraude online que explorava brasileiros Em Mianmar, jovens esperançosos são atraídos a centrais especializadas em golpes com criptomoedas, como o KK Park. Lá, a serviço do crime global, trabalham sob ameaças e torturas. Brasileiros estão entre as vítimas. TOPO Por Julia Bayer, Julett Pineda, Yuchen Li, Lewis Sanders


Brasileiros vítimas de tráfico humano em Mianmar já estão na Tailândia


Aaron mal podia acreditar na própria sorte: uma companhia de tecnologia da Tailândia lhe oferecera o emprego de seus sonhos – salário alto, benefícios generosos, uma via para escapar de um futuro desolador no sul da África. "Eu torcia para ir trabalhar em outro continente, e um dia me contataram. Eu achava que tudo era legítimo – até que cheguei a Bangcoc."

A equipe investigativa da DW encontrou-se com diversos sobreviventes de uma dessas "fábricas", o KK Park, que descreveram vigilância rigorosa, tortura e até assassinatos.


No aeroporto, Aaron teve uma recepção calorosa e foi convidado a entrar num carro, junto com dois outros jovens da África Oriental. "Achávamos que iríamos para um hotel que fica talvez a uns dez minutos do aeroporto. Mas o motorista tomou outra direção."


Depois de quase oito horas de viagem, o grupo chegou à cidade fronteiriça de Mae Sot, no norte tailandês, onde foi transportado através do rio Moei até o estado de Kayin, região de Mianmar devastada por uma guerra pela independência.


"Tinha gente com armas. Eles disseram que era para entrarmos no barco. E nós atravessamos", relata Aaron. Dali, ele e seus companheiros foram levados para o KK Park, uma central onde milhares são forçados a ações criminosas, enganando internautas dos Estados Unidos, Europa e China. Imagens de satélite mostram um complexo semelhante a um presídio, que foi construído em 2020. Desde então, sua área quadruplicou.


"A gente trabalhava 17 horas por dia, nada de reclamações, sem feriados, sem descanso", conta o jovem Leon, da África Oriental, que foi mantido à força 12 meses na central de fraudes online.


"E se a gente dizia que queria ir embora, eles ameaçam que iam vender a gente – ou matar."


Chegando ao KK Park, Aaron, Leon e os demais receberam instruções sobre como praticar os golpes. Sua tarefa era convencer os "clientes" – como são denominadas internamente as vítimas – a investirem em criptomoedas.


Estes pensavam ter depositado suas economias em investimentos lucrativos, mas ao invés disso o dinheiro entrava numa conta controlada pelos criminosos. Assim que se alcançava uma determinada soma, as contas eram zeradas.


Esse tipo de golpe online é apelidado pig butchering (abate de porcos): os trapaceiros engordam suas vítimas e em seguida as levam para o matadouro.


Os manuais distribuídos à chegada no centro descreviam em detalhes como estabelecer confiança e se aproveitar dos pontos fracos dos alvos. Por exemplo: "Seja engraçado. Os clientes devem se apaixonar por você ao ponto de esquecer tudo".


Havia metas semanais: uma soma determinada que os "agentes de venda" à revelia deviam arrecadar ou um número de "clientes" para entrar em contato. Quem não alcançava essas metas, era punido.


"Quem até o meio-dia não conseguisse nenhum novo cliente, ficava sem almoço. Se alguém reparasse que deixou de responder a um chamado, você era espancado, ou forçado a ficar horas de pé", conta Leon.


Vídeos e os relatos de prisioneiros anteriores da fábrica de fraudes confirmam torturas psíquicas e físicas sistemáticas.

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